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A Transformação em Rede e a Maldição de Zucker

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Faz quase dez anos. A data era Janeiro de 2008 e Mark Zuckerberg ainda nem tinha posto um botão “like” em Facebook. Passado distante, pois. Naquele tempo, um executivo que tinha mais da metade do sobrenome do fundador da rede social, Jeff Zucker, era o CEO da NBC, um dos maiores conglomerados de mídia dos EUA. Numa conferência de executivos de TV, Zucker explicitou o tamanho da bronca do seu mercado e, em particular, de seu negócio…

“Our challenge with all these ventures is to effectively monetize them so that we do not end up trading analog dollars for digital pennies…”

“…o grande desafio de todos estes novos negócios [de mídia, em rede] é monetizá-los de forma a não trocar dólares analógicos (que nós ainda temos) por centavos digitais (que nós ainda não temos).”

Cinco dias antes de ser demitido, em 2010, Zucker dizia que a situação tinha melhorado e que, ao invés de “pennies” [centavos], os novos negócios de mídia digital que ele observava estavam em “dimes”, a moedinha americana de dez centavos. Deu ruim, foi demitido mesmo assim.

Fora da mídia clássica, muitos lêem a frase de Zucker como… a revolução das redes é o processo de transformação de dólares analógicos em centavos digitais. Veja música, por exemplo. No mercado analógico americano, um álbum [já em CD, digital, mas não em rede] custava US$15.99, em média, no auge. Uma música, em rede, custava US$0.99, também em média, isso quando música era vendida por música. E pouca gente, nesse tempo, comprava um álbum inteiro, comprando cada uma das músicas que estava lá.

O negócio de música digital, em rede, cresceu música por música mas a grande transformação só veio, de verdade, com as assinaturas de serviços de música online, que acabaram com a escassez e onde, quase de repente, eu e você podemos ouvir toda a música composta no mundo, desde o Big Bang. Bem, nem toda. Quase toda. Quase tudo o que me interessa está lá, em algum lugar, como a playlist (no Spotify) de mais de 3.500 músicas, tiradas da coleção de mais de 10.000 vinis de Haruki Murakami. Você pagaria US$3.500 por ela? Não. E que tal alguns dólares por mês para ouvir tudo, inclusive ela? Claro que sim.

Ao se redesenhar, provendo mais acesso, mais barato, mais simples, o mercado analógico de música realmente caiu [primeiro] de muitos dólares para poucos centavos, à medida que a penetração da internet aumentava. Os volumes -de transações, mas ainda em centavos- começaram a ser recuperados, no mercado em rede, mas este foi um longo processo de destruição criativa, por um número de razões, desde a resistência dos antigos incumbentes até a dificuldade de entendimento, pelos artistas, das novas possibilidades.

O “dime“ por transação nunca rolou, pelo menos pra música. Como talvez nunca aconteça para nenhum mercado onde a escassez seja apenas um artifício para determinação de preço. Na música, que tem muito baixo “peso digital” [custa quase nada para armazenar e transmitir, em alta resolução], o problema central era redefinir a equação de remuneração de compositores, cantores, músicos e estúdios. Parece que estamos chegando lá.

Mas só começamos a chegar lá depois de mais de 15 anos de pauleira. O número de assinantes dos serviços de música online triplicou de 2014 pra cá (nos EUA) e, pela primeira vez desde 1999 (veja gráfico acima) o mercado de música americano cresceu. Quem está no novo mercado de música, digital, online, em tempo real, o tempo todo, em qualquer lugar, está vivo. O resto se foi. E nenhum dos seis grandes serviços de música por assinatura foi criado por uma gravadora da época de ouro do vinil e CD: Pandora, Spotify, Apple Music, Google Play Music, Tidal e Amazon Music Unlimited.

Mas música, aqui, é apenas um pretexto pra falar da pergunta de trilhões de dólares que está associada à Maldição de Zucker: que indústrias (ou mercados, produtos, serviços, tecnologias, modelos de negócio…) estão prontas para serem postas de cabeça pra baixo por uma transformação em rede, fazendo com que seus reais analógicos virem centavos digitais?…

A resposta abaixo é exploratória e merece reparos muitos. É apenas uma tentativa de explicitar as principais razões que vão levar negócios que parecem bem estabelecidos a mudar –ou mesmo desaparecer- em pouco tempo. Em alguns casos, uma das alternativas basta para afetar todo um mercado. Noutros, mais de uma. Em certos mercados, é possível que a mudança só ocorra se todas as (e mais…) razões estiverem presentes ao mesmo tempo (ou com o tempo). Por trás das palavras-chave em negrito, abaixo, estão muitas das razões que vão levar a inovações radicais no futuro próximo, em quase todos os mercados.

Um mercado está sujeito à Maldição de Zucker quando…

~> É possível promover novos níveis de virtualização graças a (novos) usos de (novas) tecnologias, métodos e processos digitais e de conectividade;

~> Quando há problemas de acesso e entrega (de produtos e serviços) que podem ser resolvidos em rede; quando é possível agregar mais informação e sua disseminação a produtos e serviços, criando as bases para que o ciclo SFO [S para “search”, buscar; F para “find”, encontrar e O para “obtain”, obter] funcione em rede;

~> Onde é possível digitalizar o mercado em rede, no todo ou parte, para que novos valores sejam gerados, transformados, agregados e capturados por produtores, intermediários e consumidores (estas são situações onde é possível, em rede, alterar ou influir no DNA do valor);

~> Onde é possível redefinir o mercado em termos de redes e seus efeitos, reposicionando agentes nas cadeias de valor, de tal forma que a conectividade resultante promova muitos níveis e (novas) formas de interação entre os participantes das redes que definem o mercado (fluxos P2P, B2C, C2C, B2B…), facilitando transações diretas e criando comunidades capazes de (em tese, pelo menos) promover acesso universal aos produtos e serviços do mercado em consideração.

A resposta é exploratória e incompleta, claro. Mas, vai ver, alguém parte dela e escreve uma mais definitiva. Tomara. Enquanto isso, é a que eu vou usar para analisar alguns cenários que já mudaram e outros que acho que estão para mudar. Nos primeiros, música e vídeo certamente passam pelo crivo. Nos segundos, parece que a definição já se aplica, em larga escala, para os serviços financeiros e educacionais. Entre muitos outros. E é capaz de servir para tudo. Vamos ver.